É tarefa hercúlea me tirar da cama numa manhã de domingo. Raras foram as ocasiões em que isto aconteceu em 2005 e a maioria das vezes por motivo de trabalho. Mas hoje foi uma manhã especial. Mesmo saindo na noite e chegando em casa na alta madrugada embriagado, acordei com imensa facilidade às 7 horas da matina.
Despertei com a ansiedade, era impossível contê-la às vésperas de um jogo esperado por tanto tempo. Eu veria pela terceira vez o São Paulo ser campeão do Mundo, treze anos depois de ter me encantado por aquele time orquestrado pelo maestro Telê Santana. Ele me tornou um entusiasmado torcedor do time do Morumbi - somente nas competições em que o Paysandu não disputa - e assim vi as duas oportunidades em que o tricolor paulista conquistou o planeta.
São-paulinos de todo Brasil, estamos no topo do mundo. Nosso clube completou uma trilogia hegemônica do mais importante título internacional. Nenhum time brasileiro alcançou tal feito. Santos de Pelé já é página virada na história. O São Paulo é o único brasileiro a entrar no seleto grupo dos times com o número máximo de títulos mundiais. Não deu pro time da terra dos Beatles, nada de Piscina de Fígado. O Tricolor é tricampeão do Mundo, iê, iê, iê!
É importante informar que faz parte da cultura, na Região Norte e Nordeste, torcer para equipes do Rio e SP, além do clube de sua própria cidade. Eu, por exemplo, torço pelo Paysandu (mesmo rebaixado), mas simpatizo com o Flamengo e São Paulo. Coincidentemente dois times que foram campeões do Mundo batendo o Liverpool. Mas um dia hei de ver meu Papão lá também.
Crônica do dia que é nome da rua que mudou de nome para o nome do Papa morto
Hoje é o dia mundial da luta contra a AIDS. Isso todo mundo sabe. Eu nunca tive AIDS. Isso é bom que todo mundo saiba. Não tenho comportamento de risco. Isso é muito bom que todas saibam. Mas o medo de uma agulhada já me fez faltar com a verdade.
A Unama promove todo semestre uma espécie de "trote solidário" aos calouros de seus cursos. Ao invés de prendas absurdas ou humilhações públicas, como ocorre no Sudeste/Sul do país, a Universidade da Amazônia leva um trailer do HEMOPA para que os estudantes recém ingressos na vida acadêmica possam doar sangue.
Como "calouro" do curso de jornalismo era minha primeira oportunidade real de ajudar o próximo com a seiva que circula em minhas veias. Bastava preencher o cadastro, subir no trailer, fazer o exame médico e pronto, meu sangue seria fornecido para pagar a primeira prestação de meu lote territorial no céu.
Não vou negar a motivação principal: uma suculenta fatia de bolo de chocolate com suco de laranjas que os doadores recebiam "de graça" após a boa ação. Nem tão de graça assim, mas não seria necessário desembolsar dinheiros, apenas "desenveiar" sangues. Simples.
Parecia simples. Preenchi a primeira ficha contente, fazia piada de tudo, tiraria de letra aquilo ali. Minha alegria desvaneceu quando entrei no trailer e uma colega de classe que passara por todas as etapas e esperava sua vez para doar me apresentou a agulha colossal que me seria inserida intravenosamente.
Confesso que, suando frio, tremi de nervosismo. Senti-me uma adolescente de quatorze anos virgem, que se defronta num motel com um afro-brasileiro de quase dois metros, besuntado em óleo de amêndoas, ávido para possuí-la carnalmente. Resumindo: Eu tive medos, muitos medos daquela agulha em mim.
Eu já estava na fase avançada do processo, só restava o exame médico para passar e seria muita covardia dizer que o pânico que me dominava não ia permitir um ato de bondade e amor ao próximo de minha parte. Caminhei apreensivo rumo ao pequeno gabinete, que mal cabia a médica e eu. Uma espécie de confessionário onde eu deveria expor minhas intimidades sexuais mais ocultas.
No que começou a sabatina fui fornecendo as respostas corretas para a doutora. Eu tinha que saber o "timing" da mentira, sob o risco de responder tudo corretamente e ser considerado limpo e apto ao martírio "agulhesco". Por outro lado, certas indagações se fossem negadas poderiam me causar má impressão perante a médica.
Excluída a hipótese de homossexualidade ou bissexualidade, eis que surgiu a providencial: "Já teve relação sexual com várias parceiras desconhecidas?". Ah, essa era a melhor pergunta que ela poderia fazer pra me deixar sair por cima. Na pior das hipóteses ela pensaria: "Esse cara é glutão mesmo, ele não perdoa... marca". O que não seria muito ruim para mim enquanto homem viril. Então com uma falsa timidez soltei um "sim". E quando ela perguntou se eu usava preservativo, baixei a cabeça, penitente, e disse: "às vezes".
Nesse instante ela parou a entrevista, arregalou os olhos e me deu um cartãozinho com o endereço de uma clínica que faz exame de HIV. Disse que não me era permitido fazer doação durante um ano após a ultima suruba, porque eu me enquadrava entre os que têm comportamento de risco. Saí triunfal de lá, nunca fiquei tão feliz com uma reprovação. Mandei às favas aquela agulha estupradora e desci do trailer como um aidético em potencial e comedor eficaz, ao menos na opinião da discípula de Hipócrates que me atendeu. A enchi de inverdades, mas me livrei de um arrombamento venoso.
O medo de uma agulha me fez mentir, mas eu não tenho comportamento de risco. Isso é fundamental que todos saibam. Não tenho e nunca tive AIDS. Isso é importante que tenham conhecimento. Hoje é o dia mundial de luta contra a AIDS, por isso cuidado com agulhas e outras coisas que possam ser inseridas no corpo humano. Se você não gosta de morrer, não pegue essa doença.
Brasileiro // Paraense (de Belém) // 24 anos // Torcedor do Paysandu
// Bacharel em Direito // Estudante de Jornalismo // Amante do futebol, das palavras e da boa musica // Eu sou o Pedro // I'm a real Nowhere Man...